Oi, gente! Como vocês estão neste sábado? Pra quem ainda estuda, muita ressaca das férias?

Quem já me conhece por aqui, já sabe que eu não costumo muito escrever resenhas sobre chick lits. Romances, no sentido tradicional da palavra, não costumam ser o tipo de leitura que procuro ao circular pelos corredores de uma loja de livros. Sendo assim, quando eu decido ler, é porque me chamou a atenção, então senta que lá vem história.


O romance do qual falarei hoje é o Poder Extra G, da Thati Machado.

Nina está indo passar um mês em Buenos Aires, em meio a muito tango, alfajores, doce de leite, e um coração partido. Ela acaba de terminar um namoro. Mas o que ela não sabia é que a capital portenha reserva muitas surpresas, e que as vezes dividir um sanduíche pode compensar (levante a mão quem imaginou o Joey Tribianni falando: Joey doesn't share food).

Nina tem 92 quilos e é muito bem resolvida com isso, em vários aspectos. Mas ninguém é de ferro, e o término dá um baque na sua auto-estima, momentaneamente. Porém, no meio de uma noitada, ela conhece Nico, um argentino simpático, carinhoso e sexy com quem dança a noite toda. Parece bom demais? Espere até conhecer a família maravilhosa do argentino, inclusive o Noah, o irmão fofo do Nico que tem suas próprias batalhas para enfrentar. Ele é transexual. E se encanta pela namorada do irmão e melhor amigo. 

E Nina, que levava "numa boa" casos de uma noite, porque julgava não saber se veria o cara no dia seguinte, acaba se envolvendo pouco a pouco, apesar da pergunta persistente martelando em sua cabeça: E quando eu tiver que voltar para o Brasil?

O aspecto de Poder Extra G que me atraiu foi a representatividade. O livro é todo trabalhado no empoderamento, e eu acho isso fantástico. Temos uma personagem gorda, um personagem transsexual, e isso não é o que os define. São pessoas com problemas, alegrias, personalidades diferentes e verossímeis com quem o leitor simpatiza logo de cara (embora o enredo seja menos realista as vezes). Isso é uma característica, não o que os define. Nesse sentido, Poder Extra G foi uma lição de humildade. Eu não sou o público alvo do livro, mas decidi ler porque eu sabia menos sobre as duas questões do que o Jon Snow. Eu não sei nada.

Eu nunca fui gorda. Já engordei e emagreci em momentos diferentes da vida. Já desejei mudar várias coisas em mim. No início da adolescência, eu venerava Thalia, e não ser magra como ela me deixava muito triste, principalmente porque eu queria ser atriz. Eu nunca sofri bullying por causa do meu peso. Mas em uma idade em que imagem é tudo, a industria de modelos mirins e adultas consegue ser mil vezes pior. Ser chamada de cheinha, fortinha, todos os eufemismos. Também não gostava de ser baixinha, nem de ter carinha de criança.
Então, apesar do que eu disse, de nunca ter sido gorda, eu tinha uma relação problemática com o meu corpo. E se você tivesse me feito essa pergunta na época, minha resposta teria sido bem diferente.

Quando eu tinha 17 anos e fui fazer intercâmbio, meu maior medo era engordar. Como se isso fosse me tornar pior. Eu ouvia casos de pessoas que foram para os EUA e para a Alemanha e ganhavam vários quilos em poucos meses. Logo de cara, fui parar em uma família que tinha uma máquina de coca cola no quintal, e a minha mãe anfitriã era acima do peso. Talvez não para o lugar onde eu morava, mas definitivamente para padrões brasileiros.

Imaginem. Se eu me julgava, e me sentia pior, mesmo sem ser realmente acima do peso, ver outras pessoas que definitivamente estavam fazia com que eu as julgasse. Eu lembro de, enrolada numa toalha, ver uma garota que eu tinha acabado de conhecer, na piscina do hotel, se sentindo o máximo. Com isso, deixei a toalha de lado e fui me divertir. Mas em nenhum momento eu pensei: que legal ela ser tão bem resolvida. Na época, eu tenho vergonha de dizer que pensei: se ela pode, se ela se sente a vontade, eu também posso. Eu sou bem mais magra do que ela. É o velho "se sentir bem pela comparação com outros".

Isso se repetiu ao longo do ano. Na época, ao saber que o crush tinha sido namorado de uma menina gordinha, eu imaginei logo que ela devia ser muito legal, e ele mais legal ainda por ver além das aparências. Gente, tudo errado, pensa de novo. Por que eu não pensei que existia o fator atração? Que a garota era bonita, ponto. Ela podia ser legal também, sei lá. Não era uma gorda com rosto bonito. Era bonita.

Porque fomos treinados, adestrados. Temos sit coms ridicularizando gordos, personagens gordos cômicos, posts de Chris Pratt gordinho versus magro, no melhor estilo "parece que o jogo virou, não é mesmo?".

Do outro lado, o culto ao corpo. Geração fit, glúten free, em que respirar errado já engorda. Academias com a modalidade crossfit se multiplicam mais do que formigas em piquenique. Lojas de roupa de marca reduzem cada vez mais o molde do manequim, de modo a segregar e excluir ainda mais quem não se encaixa no padrão.

Então, você lê Poder extra G, e pensa que existem tantas Ninas, mas também tantas outras que não se sentem confortáveis na própria pele.
"Sou bem resolvida com esse corpo cheio de curvas, mas fico imaginando como uma menina jovem e insegura iria se sentir no meu lugar"
Thati Machado é uma autora de Niterói, RJ (conterrânea minha).  Uma das estrelas do wattpad, juntamente com Bruna Fontes e Chris Salles, Thati tem alguns romances publicados, dentre os quais "Com outros olhos", "Contando Estrelas", um conto no livro Mundos Paralelos, um no Blogueiras.com, e tem muito mais coisa vindo por aí. Aliás, não percam o spin off de Poder Extra G, Singular, no wattpad.

Um tema recorrente nos seus livros é diversidade. Seus livros lidam com questões relacionadas ao público LGBT, racismo, aceitação do corpo. A própria Thati fala com propriedade sobre vários desses assuntos.

Eu sou branca, cis, hétero. Hoje em dia, eu visto 38-40. Sei que estou escrevendo de um lugar privilegiado, e olha que já fui mais magra. Não tenho lugar de fala nenhum aqui, não posso opinar. Mas posso dizer que o livro me emocionou em vários momentos, especialidade da Thati Machado.

A mensagem que a Thati passa é de aceitação, de realização, independente do seu sexo ou das suas medidas. Aliás, tem cenas hot. E tem umas confusões dignas de Maria do Bairro no meio sim, porque é chick lit.

O diferencial é o olhar. Eu não sou parte do público alvo, mas fiquei imaginando a importância que um livro desses tem para quem ele representa. Já assisti alguns vídeos sobre crianças que recebem bonecas com membros amputados, e ficam emocionadas. Esse é o poder da representatividade.

Quando eu digo que não sou o público alvo, não quer dizer que eu não possa me beneficiar dessa reflexão que o livro traz. Mas ele não foi escrito para mim. Eu posso encontrar uma variedade imensa de protagonistas que se parecem comigo, ainda mais hoje em dia, que o geek está na moda. A protagonista da minha série preferida (Buffy) não me deixa mentir.

Poder extra G foi escrito para as Ninas e para os Noah, para pessoas que podem se beneficiar diretamente de se verem representados em um livro com uma mensagem tão positiva. Isso não acontece sempre.

Título: Poder extra G
Editora: Astral Cultural
Gênero: Literatura Brasileira
Número de páginas: 239

Beijos da Lari

31 Comentários

  1. Me parece ser um bom livro só pela sua resenha já percebe-se.
    Ah, eu quero ler...

    ResponderExcluir
  2. Olá!! Gostei a sua resenha, gostei da temática do livro e a história mostra que temos que nos aceitar como somos. Que somos únicos e não existe um padrão de beleza perfeito, a beleza vem de dentro e reflete no que vemos no espelho e no que transmitimos a outros. Amei demais sua resenha.
    Vou ler esse livro.
    Beijocas.

    www.meumundosecreto.com.br

    ResponderExcluir
  3. oi
    Não conheço o trabalho da autora, mas só pelo título do livro, a gente já fica querendo ler e muito....Poucos hoje em dia não sofrem com uns quilinhos a mais e são poucos, os que se sentem bem com isso e não ligam para regras de uma sociedade. Gostei do livro :D
    bjo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é. E parte da culpa deles se sentirem mal é nossa (da nossa sociedade), por não respeitarmos as diferenças e querermos colocar a todos na mesma caixinha. bjosss

      Excluir
  4. Lari que incrível ótimo ler um livro assim, os personagens do livro são bem construídos. O livro passa uma mensagem boa, a trama é bem fofa, gostei muito da Nina pois ela aceita como ela é, vale a pena ler o livro. Nina é um personagem que faz toda a diferença, bjs.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Com certeza. O mais importante num livro é ter personagens com quem se pode simpatizar e torcer por eles. E a Thati fez isso em todos os livros que eu li.

      Excluir
  5. Oiii Lari

    Que surpresa com esse livro hein? Pela reseha se nota o quanto vc desfrutou e o quanto o livro inspira. Quero ler algum livro assim, com personagens tão reais e cativantes.
    Ótima dica

    Beijos

    aliceandthebooks.blogspot.com

    ResponderExcluir
  6. Eu já vi esse livro é maravilhooooosoooooo

    Ameiiiiii o texto ❤️❤️

    ResponderExcluir
  7. Achei a capa desse livro bem bonita. Fiquei curiosa para ler.
    Bjus
    Jaque
    www.quebreiaregra.com.br

    ResponderExcluir
  8. Gostei do livro, ainda mais pelo fato dele abordar temas muitas vezes delicados. Autoestima, aceitação e o próprio bem-estar são tópicos importantíssimos para serem abordados e cuidados por nós. Não conheço a autora, o que me instigou a ler uma obra. Muito bom!

    ResponderExcluir
  9. Apesar de não gostar muito de romance adorei a resenha e a premissa desse livro, amei a capa também, o nome chama muita atenção e to aqui ja colocando na minha lista de quero ler!

    ResponderExcluir
  10. Olá, tudo bem?

    Eu não curto muito romance, até leio e já li alguns livros. Gostei da sua resenha, mas infelizmente o livro não despertou a minha atenção. Vou indicar para as amigas o livro Poder Extra G da Thati Machado.
    Abraços

    ResponderExcluir
  11. Eu sou louca pra ler esse livro ❤ me parece ser muito bom e acho que eu me veria muito nele.
    Amei sua resenha, deixou aquele gostinho de quero mais.


    www.quatroestacoess.com

    ResponderExcluir
  12. Que resenha legal eu
    Amei o livro é já quero ler coloquei na minha listinha pessoal para ler também

    ResponderExcluir
  13. Que post incrível! Parabéns, vc disse tudo o que sei que mtas blogueiras já pensaram mas tem medo de falar. Confesso que na minha adolescência eu vive com o mesmo dilema que vc, me comparar com os outros. Hj eu sou uma pessoa bem resolvida, mas na época eu era super magra e tinha preconceitos achando que por ser um tamanho menor seria uma pessoa melhor tbm, a mídia colocava e acredito que ainda coloca, tanta coisa errada na cabeça dos jovens que as vezes eles agem por impulso sem ter noção das consequências de seus atos. Com certeza vou ler pq me identifiquei mto.

    ResponderExcluir
  14. AMEI seu post!!! E adorei o tema do livro ser diversidade. Aliás, acho que isso tem tudo a ver com a blogosfera, onde existe uma cobrança muito alta em relação à padrões de beleza e moldes da sociedade. Muito bom ver estas discussões e principalmente refletirmos se conseguimos mostrar realidade que existe por trás de looks do dia e tantas outras fotos lindas. Também sou bem resolvida comigo, mas vejo muita gente sofrer muito por isso! Beijos

    ResponderExcluir
  15. Já li duas vezes Poder Extra G.. Um romance que irá te prender do princípio ao fim, com certeza!!!! Espetacular também é o canal no YouTube da Escritora!!!!

    ResponderExcluir
  16. Ai meu Deus quero ler,sério Thati Machado está na minha lista de leitura a muito tempo e sou encantada em ler todos os seus livros. Amei a sua resenha e parabéns!

    ResponderExcluir
  17. Não conheço essa obra e nem a autora, mas fiquei com curiosidade de conhecer, graças à sua resenha, que é muito interessante. Abraços e parabéns pelo post!

    ResponderExcluir
  18. Já tinha ouvido falar e ler detalhes dessa obra me deu mais vontade de ler!
    Vou procurar!

    ResponderExcluir
  19. Oi meninas, tudo bem? Que resenha mais incrível. É difícil encontrar um livro assim que mexa tanto com a gente e nos passe uma mensagem tão positiva. Acredito que as pessoas devem se aceitar do jeito que são... se estão felizes dessa forma. Porém se elas sentem que podem mudar, podem evoluir porque então não buscar algo melhor? Fiquei gordinha por um tempo e confesso que era mal atendida em algumas lojas e isso me deixava muito triste. O fato das roupas não servirem mais também me deixava mal, então decidi emagrecer. Foi uma decisão minha e me sinto melhor agora. Por isso sempre aconselho a pensar primeiro no que te faz bem. Beijos, Érika =^.^=

    ResponderExcluir